terça-feira, 24 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
DIVAGAÇÕES SOBRE O FENÔMENO HUMANO -1-
"A força não provém da capacidade e sim de uma vontade indomável." Gandhi
Os olhos estão marejados. O fonógrafo esgana-se, insiste em fazer-nos ouvir músicas que nossos ouvidos e mente negam-se a querer reconhecê-las, mas em nossa pele produzem calafrios enquanto vagas e distantes lembranças, esvanecidas em brumas, insistem em se fazer presentes. Falam de assuntos onde há a sensação que passamos por eles há muito tempo. Fazem-nos começar a aflorar à lembrança coisas há muito esquecidas. O corpo treme ao entrechoque destes valores, ora quando a mente tenta se fundir com elas e fazê-las vivas, ora renegá-las, fazendo com que permaneçam perdidas dentro do mais absoluto nada. Mas a curiosidade vai vencendo a nulidade e tomando forma. São sons que falam de valores morais, de hombridades, de compromissos assumidos não somente com outros, mas principalmente conosco próprio. São hinos que enaltecem valores civis, valores morais, da verdade e retidão humana, que se situam acima do próprio valor do existir, que envolvem a nós e todos os outros.
Mas súbito, mesmo com as canções continuando em sua cascata exibicionista e demagógica, eis que brota do nada um momento de absoluta calmaria, quando o som do violão rompe todas as canções, e fazendo eco com o silêncio, suas cordas murmuram promessas de recompensas impagáveis, onde a paz e satisfação totais imperam. E, em um momento espástico, parece que a ilusão e realidade se fundem, tornando-se um novo elemento, desconhecido, que nos leva a um amplexo totalmente desconhecido, gozo sublime, total e infinito. Ele não passa nunca, e derrama sobre nosso corpo novas sensações antes escondidas e totalmente desconhecidas. Deixemos nosso corpo relaxar, e nos mesclemos com esta nova percepção, deixando com que ela nos impregne, entremeie-se por nossas carnes e ossos. Fechemos os olhos e deixemo-nos ser envolvido por ela, e de repente estaremos como que voando, apenas uma consciência flutuando, liberta da massa carnal. Estaremos observando primeiramente locais habituais, como o quarto que estamos, e deitado sobre a cadeira, nós mesmo. Depois, dependendo da habilidade e capacidade, iremos nos afastando deste ambiente, e o limite onde se ir é o imponderável. Nós somos o limite. 
Nunca diga que o desconhecido existe, ele só é uma verdade se nossa mente não for capaz de interagir com as novas realidades ou elaborar fantasias, que divirjam da linha de raciocínio habitual, lógico. No momento que a mente consegue vagar isolada do corpo e do coerente por novos caminhos desconhecidos, rompida de uma forma quase que total com o que denominados de lógica habitual, estará andando em novas terras, novos mundos. Aí realmente poderemos ter a percepção e falar em como o mundo é gigantesco, senão infinito. Tudo dependerá do nosso pensamento cognitivo. E teremos certeza e convicção da colocação: o homem é imortal e infinito. E, por incrível que possa parecer, teremos a sensação intuitiva que algumas coisas não existem mais, como o espaço, o tempo. Todos estes são recursos fugazes para se enfrentar nossas realidades mundanas. Como parte de algo superior, temos o “dèjà vu” destas outras verdades. Infelizmente as necessidades do dia a dia fazem embotar a capacidade em as ver e as sentir. Mas se reservarmos um tempo diário a avaliar estes valores, conseguiremos vislumbrar estas verdades por um novo prisma.
Deus nunca faria uma criação para que simplesmente surgisse e desaparecesse depois de algum tempo, num estalar de dedos. Toda criação existe por uma finalidade, a de mostrar a capacidade que temos em a executar. Acreditamos que corpo e alma são manifestações diferentes de um mesmo objeto, o homem. Se o corpo é finito, o mesmo não acontece com a alma. Ela, desprendida de seus grilhões, quiçá irá para lugar especial até que seja o momento dela ligar-se novamente com um outro, e repetir o ciclo, Realidade ou fantasia, expectativa de um sonho de imortalidade e resquício da esperança de quinhão da eternidade, a certeza deste conhecimento não nos pertence nem nunca pertencerá.
Se os momentos de “déjà vu” muitas vezes beiram as raias da irracionalidade, tendem a mostrar sempre que o contato entre o passado e o presente se faz de uma forma incoordenada, esporádica e espástica. O mesmo acontece com o “déjà senti“ e o “déjá visité”. E por similaridade podemos até cogitar em contatos entre o presente e futuro e até mesmo entre o passado e futuro.
sábado, 7 de agosto de 2010
VISLUMBRES DA INFÂNCIA 4

O MAIS PROFUNDO DOS AMORES
(Todas estas obras são de ficção e fruto de sua imaginação. Toda e qualquer eventual semelhança com fatos da vida real, passados ou presentes não passa de mera coincidência)
Há momentos que fico assustado em como as idéias voam, deslizam sobre o tempo, indo buscar fatos perdidos dentro da obscuridade existencial do ontem.
Hoje escrevia para uma pessoa que gosto demais, e relembrei-me do caso V... /Maf... Não menos que 40 anos passados já se vão desde que este fato assediou minha existência. Realmente as primeiras raízes tiveram início quando teria eu meus sete, oito anos. V... era uma garota que eu havia aprendido a ver com carinho todo especial já em minha tenra idade. Além de subir em árvores, brincar com meus amigos, falar sobre garotas, as imagens de sua casa, pequena, mas sempre bem arrumada por sua mãe, nunca me deixaram minha mente.
Mas apesar disto tudo, eu não consigo me recordar delas sem ver estampado no rosto das
duas os eternos sorrisos que ali habitavam. E, dentro de minha infância e juventude, chamava-me a atenção a ausência da imagem masculina dentro daquelas singelas paredes.Aos meus catorze, quinze anos, com o aumentar dos hormônios, sentia-me muito mais atraído por ela. Tornara-se um de meus amores juvenis, senão dos muitos, o primeiro. Ao abandonar Piracicaba para dar continuidade aos estudos, nos distanciamos, perdemos aquele contato mais profundo, mas não o relacionamento esporádico.
Ele foi reatado após umas dez primaveras. Com meu retorno à velha cidade, comecei demonstrar vislumbres de meu íntimo à ela. Correspondências foram trocadas, idéias foram discutidas, e tinha eu meus sonhos que talvez o futuro viesse a reservar alguma coisa em comum para nós. Agora elas já moravam em um sobrado espaçoso, longe daqueles odores enjoativos. V... já não era mais aquela meninota, mas sim uma mulher, com valores e idéias perfeitamente definidas..
Mas nesta fase o surgiu o “moço da moto”, com sua roupa negra de couro, suas canções de Hair, falando respeito do doce amor a primeira vista e chegou conquistando seu coração, interpondo-se entre nós. Explosivamente foi tomando conta do espaço, e quando tomei consciência, vi que todo meu esforço havia sido perdido. Foi no dia que V., toda alegre, dengosa, veio correndo beijar-me, dizendo que agora sua vida estava de novo completa, pois amava perdidamente o rapaz da moto. E lá se foram meus sonhos água abaixo. Cabisbaixo no meu interior, mas negando-se a demonstrar a derrota, com sorrisos nos lábios, nada mais restou que dar os parabéns por sua escolha.
. Alguns falavam que dizia respeito a um tratamento carinhoso, outros a respeito ao seu verdadeiro nome. Seja como for, seu real significado está perdido no tempo e espaço. Todos os envolvidos há muito já deixaram definitivamente estas plagas e não sei dizer se andam pelas brumas do purgatório ou entre os fogos do inferno. Pode ser que se encontrem também entre as nuvens do céu. Quando se ama por amor, os sentimentos são essencialmente profundos. Não há cobranças, mas aceitação e impulsão de um querer complementar mais ainda o cônjuge. Mas quando se ama comparando uma pessoa com outra, isto não é bem amor, e os fatos tomam inexoravelmente outro rumo.
E foi este quase que seguramente o último amor de V... por Maf... , fogo de palha, explosivo, mas que não se acabava nunca porque tinha toda a palha do mundão para queimar. Cada passo dado entre os dois era muito mais uma promessa de consolidação do relacionamento que um mero e especulativo motivo para eventual separação.Esta foi a verdadeira perdição de V... Assim como se amaram com violência e possessivamente, sem limite algum para dar vazão aos seus sentimentos, também este fato constituiu a âncora para uma série de acontecimentos seqüenciais. Maf... mergulhando em seus pingões cada vez maiores, com sua ambivalência sexual oscilando entre o amor por V... e por seu amante, cada vez mais foi deixando a angústia tomar conta de sua pessoa. O amor por ela podia quebrar todos seus valores, criar novas metas existenciais, criar mundos e mais mundos, mas não conseguia fazer dela a única pessoa que amasse em sua vida.
“Queria ter o sol nas mãos para tecer com seus raios dourados uma eterna renda de luz, onde descansaria meus pensamentos tristes. E nesta infinita rede ilusória, deixaria meus olhos abertos até que cansassem de ver miríades de estrelas cintilantes repletas de longínquas e inatingíveis felicidades”.
Tinha ele a capacidade de mergulhar no improvável, e sair descrevendo as belezas existentes em todos os lados antípodas, de extrair amor do ódio, e ver e construir uma amizade na incompreensão e desprezo de outro.

Houve um momento que as coisas ficaram tão difíceis que, dentro da conturbação que enfrentava, pressão social, pressão familiar, dos amigos, a própria ambivalência, que a depressão tomou conta dele integralmente, e o escape mais fácil e simples para todo o caos foi um só. E até hoje os seus antigos amigos, aqueles mais chegados, quando esporadicamente relembram do áspero e indigesto assunto, discutem se chegou ele realmente a ouvir ou não o disparo da arma antes do projétil lhe fragmentasse o crânio.
Esta foi a separação e perda brutal para todos. Para um o cemitério, para outra o chorar pelo amor definitivamente perdido, isto sem falar nos sentimentos familiares. E foi também o começo de sua loucura. Para todos os que tentassem se aproximar dela vislumbrando um relacionamento afetivo, a eterna comparação de seus novos sentimentos com os que tinha para Maf é o que se fazia presente. Tal qual pêndulo que oscila entre um e outro lado, lento mas sempre no implacável movimento, assim também sua idéia abrochava. Tão certo como o vai e vem, a comparação acabava por preencher todo o seu ser, fazendo arvorecer todas suas dúvidas, suas insatisfações, que culminavam com o afastar de todos os que se aproximassem dela.
Lenta, mas inexoravelmente, o amor em palha pelo rapaz da moto ardeu e também faleceu na comparação.
V... depois de algum tempo, ignorando seus mais profundos sentimentos, deixando-os firmemente relegados e encarcerados em segundo plano, simplesmente preferiu se tornar a “Grande Senhora”, unindo-se pelo matrimônio a um dos filhos de um dos homens “poderosos” da cidade.
Mas, lentamente foi consumindo-se, tanto na pessoa como na união em que não era feliz. Não era de sua feitura ser a grande matriarca, ainda mais que não tinha ao seu lado a quem verdadeiramente amar. Por fim seu casamento também acabou. O marido junto com o filho, mudaram-se para terras não antes navegadas. A ela, restou ficar jogada à solidão dentro da gaiola de ouro que vivia e havia restado, sem mais ninguém ao lado que pudesse receber ou externar seu amor e carinho.
Infeliz do pobre Maf... e seu círculo vicioso. O contínuo ascendente de sua sensibilidade fez aumentar a bolha de sensações que lhe envolviam o corpo, mente e os sentimentos, e a impossibilidade de dar vazão aos pressentimentos e sensações que se acumulavam e o envolviam, foi fazendo ampliar em seu interior a bomba da incompreensão e da insatisfação, que se avolumavam com o não exato entendimento de sua compreensão e sensibilidade.Houve um momento impossível de se conter. Queria se doar e todos davam risadas de sua pessoa, uns disfarçadamente, outros de forma totalmente petulante. Queria amar, e quanto mais tentava mostrar o quanto era profundo seu sentimento por todos e tudo, mas isto se constituía em regalo para suas cínicas amizades. Perdeu todos seus amores e suas estimas, tanto internas como externas.. O que nunca deixou de cultivar, brotar e florescer em seus relacionamentos, a que devotava o maior carinho e respeito foi o eterno e silencioso desprezo devotado por aqueles que se negavam a entendê-lo, que nada faziam para ampará-lo.
De forma cada vez mais avassaladora as indecisões, angústias e ambivalências foram tomando volume até que a espoleta detonou aquele pobre corpo e alma.
Apesar de todos os esforços para permanecer existindo, as forças foram exaurindo continuamente, as motivações se evanescendo e acabou ela pela triste decisão de encontrar-se novamente com Maf... , seu eterno e realmente único amor, para além deste mundo.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
VISLUMBRES DA INFÂNCIA: 3


Antigamente, quando morávamos em área rural, nossa formação - em contato contínuo com a natureza - tinha características peculiares. Acordava-se cedo, até mesmo antes do raiar do sol. A primeira coisa a ser feita era ligar o rádio, pois assim ouvíamos algumas músicas, e também recados que eram enviados da cidade para nós. É bom rememorar que tneste tempo não tínhamos energia elétrica. Quem fornecia energia para o rádio era a velha bateria (acumulador) de carros.
palha dos colchões enquanto outra pessoa ia estendendo as camas. Cuidava-se dos animais, ao cair da tarde saía-se em busca dos ovos de galinha e de gravetos secos para acender o fogão a lenha na madrugada seguinte. Sacrificava-se esporadicamente algum animal para poder dele fazer a refeição. Moía-se a carne de porco para fazer lingüiças, que ficavam semanas secando. Trocavam-se os ferros de brasas esfriando com outro de rubras para passar roupas. Desde criança, incutia-se o conceito de responsabilidade e de divisão de trabalho. Para podermos exigir no futuro um serviço bem feito, tínhamos desde a infância a saber como fazê-lo bem feito. E ainda sobrava tempo para subir nas árvores e deliciar-se com as frutas, bem como correr no final da tarde para o rio tomar banho com os outras pessoas e nadar. E não se podia esquecer de lavar os pés antes de deitar.
picado por cobras era muito grande. Também tínhamos de olhar com cuidado as árvores, pois muitas vezes aí também estavam as víboras. Por diversas vezes na infância colhi flores para enfeitar a urna de alguém que havia partido em virtude disto. Tínhamos de ficar sempre atentos a qualquer coisa diferente. Se estivéssemos de cavalo, o perigo era pisar em algum enxu de vespas. E neste caso a ordem era pular do animal e ficar deitado quieto no chão até que o enxame fosse embora. Levava-se menos picadas. A realidade é que a mínima distração poderia causar a morte. Poderia não haver uma segunda oportunidade. Desde a infância era imprimido de modo indelével o conceito do perigo e da morte. Somente assim é que teríamos mais possibilidades de sobreviver.
contava histórias ou fazia com as mãos as mais diversas sombras serem projetadas na parede do quarto. Eram quando víamos cabeça de cachorros, pássaros, rostos humanos e as mais diferentes formas imagináveis tomarem vida na parede caiada. Outras vezes sentava-se nos troncos de madeira no terreiro e ficava-se jogando conversa fora com os outros moradores do sítio. Dou graças de ter tido esta experiência fantástica que meus pais possibilitaram.
Eram valores bem diferentes que existiam na área urbana. Agora aqui se andava de carrinho de rolimã, jogava-se futebol na rua, divertíamos com brinquedos mais sofisticados, tínhamos que colocar calça azul e camisa branca para ir à escola. Tínhamos de preparar as lições, estudar... estudar... estudar... Mas chegavam as férias. E corríamos de novo para a área rural. No sítio havia lugares que éramos proibidos de irmos a sós. A água era um grande atrativo, mas tínhamos de ter sempre alguém conosco. E para não esquecermos, sabíamos que esta era a lei. Primeiro era o aviso, depois... a cinta bem aplicada na bunda era a certeza absoluta de nossos pais que a lição não seria mais esquecida.
Foi assim que descobri que era proibido brincar no paiol de milho. Também era proibido ir onde se guardava algodão... mas era tão gostoso ficar pulando nele... (onde se podia até vir a morrer sufocado se afundássemos demais).
Havia o quarto de ferramentas. Também era proibido entrar nele. Era ali que ficavam as
ferramentas de corte, bem como os venenos utilizados. Geralmente ficavam muito bem fechados.Era proibido brincar com a lanterna. Ela era reservada para iluminar à noite algum animal selvagem que atacasse as galinhas ou outras criações. E também havia a terrível espingarda, pendurada atrás da porta, coisa sempre cobiçada de se ter às mãos. Ela era quem liquidava estes intrusos noturnos. E era o maior atrativo dentro da casa grande e a peça que mais nos enamorávamos para ter em nossas mãos.
Tinha eu meus seis ou sete anos, quando meu pai resolveu me ensinar a atirar e algumas coisas a mais. Um belo dia pegou a cartucheira, explicou como funcionava. Depois orientou a firmá-la com toda a força contra meu ombro, mirar no animal e puxar o gatilho.Assim o fiz. O tiro foi de um lado, e eu caí de costas com a violência da explosão. Com o ombro dolorido, levantei-me e fui ver minha primeira caça. Um pobre passarinho estava caído no chão, debatendo-se entre a vida e a morte, piando sem parar. E eu não podia entender comigo mesmo o porque que havia feito aquilo... fiquei vendo a agonia do pobre pássaro, até que cessaram seus movimentos e calou-se seu trino. Olhava para meu pai ao meu lado pedindo ajuda, e ele quieto, sem falar uma única palavra ou fazer um único gesto. Foi uma ótima lição de ele me deu.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
BRASÍLIA: Vislumbres de Infância 02
Há coisas interessantes que ocorrem durante nossa existência. Há fatos corriqueiramente repetitivos e os habituais, que são a grande maioria das ocorrências. Mas também há os raros, como ver ser fundada uma cidade, e ainda raríssimo, como ver uma capital de um país ser mudada, como o foi a do nosso país para o vasto sertão central do Brasil.
Independente de seu contexto político bem como de todas as iniciativas que ocorreram para sua existência, bem como conseqüências de sua nova localização e atuação, a realidade é que pouquíssimas gerações (e pessoas) tiveram a oportunidade de ver um fato desta magnitude acontecer.
A idéia de sua mudança para a área central (1761) já era defendida pelo Marquês de Pombal (1699-1782) e pela Inconfidência Mineira (1789). Em 1823 José Bonifácio (1763-1838) defendia a transferência da Capital para uma área central. Em 1891 a Assembléia Constituinte
aprovou a mudança de Capital, que foi demarcada por Luis Crulz (1848-1908), Diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Mas, as tormentas governamentais que ocorreram nos anos vindouros fizeram com que a idéia permanecesse adormecida.
Ela foi despertada novamente com a entrada de Juscelino Kubtscheck de Oliveira na Presidência da República. E a coroação da idéia ocorreu precisamente em 21 de abril de 1960, com a inauguração de Brasília. Retornando a idéia inicial, há oportunidades únicas da vida de algumas pessoas. E minha família não poderia deixar de testemunhar tal fato. Independentemente das dificuldades a se enfrentar, seríamos testemunhas da fundação de Brasília.
Minha mãe Antonieta, minha irmã Maria Ruth, meu irmão Rossini com sua esposa Neyde e eu nos mobilizamos para esta viagem.
Saímos de Piracicaba três dias antes da inauguração, indo para Brasília em um Jeep. Nas cidades dormíamos em hotéis, e quando estes não existiam, repousávamos como os outros, na beira das estradas. Enfrentamos o asfalto, as estradas de terra e chegamos um dia antes da inauguração. Em Brasília não havia restaurantes onde se fazer as refeições. A alimentação era distribuída pelo Exército, em caixas de papelão, com dois lanches, dois ovos cozidos, uma fruta e um pequeno pacote de sal em seu interior. Não faltava ampla distribuição de leite e água. Também estava lá o sino que badalou anunciando a morte de Tiradentes (1746-1792), agora anunciando com suas badaladas a nova Capital Federal.
E assim fomos testemunhas junto com candangos e outras pessoas de ver surgir uma nova cidade e Capital do Brasil. E de toda esta experiência, algumas palavras ficaram indelevelmente marcadas em nossas mentes:
"Deste Planalto Central, desta solidão em que breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino".Juscelino Kubistchek

terça-feira, 23 de março de 2010
Retorno à década de 1950
Hoje, os mais de sessenta vivem em um tempo diferente. A infância, a juventude, a adolescência, a vida adulta, tudo foi diferente. Andava-se de carrinho de rolimã, saia-se de casa e não havia necessidade de um celular a nos acompanhar. Dormia-se com janelas abertas nas noites de verão com certeza que não seria assaltado. E muitas coisas mais.
Não estou querendo julgar se foi melhor ou pior. Não é isto que está em jogo, mas sim o fator da recordação, da adaptação e aceitação de novos valores.
Coisa gostosa era chupar jabuticaba no pé, brincar com o estilingue, nadar no rio e sair correndo atrás de redemoinhos para caçar saci com a peneira. Era um tempo repleto de atividades físicas e fantasias. Se nada havia para fazer, deitava-se no chão, se ficava a ver as nuvens passarem. E logo vinham as semelhanças com objetos do cotidiano...
Hoje, o computador e os jogos eletrônicos tomaram conta de toda a atividade. O importante é a telinha em frente ao rosto. O resto é resto...
Se de um lado temos pessoas com maior grau de cultura, de outro temos jovens que deixaram de ter infância. São os tempos modernos e o preço que pagamos por eles.
Mas eis que de repente, mergulhamos neste mundo já superado (segundo alguns) e encontramos o antigo ar de magia quando criança, do cabo de uma vassoura surgiam os melhores alazões ou picaços. As peladas eram inevitáveis ao final da tarde e aos fins de semana. Deliciávamos vendo, por exemplo, o carrinho que se aproximava da beirada da mesa e mudava de direção, não caindo. O mais importante era o imaginário, e não o objeto em si.
Este ambiente, como que fazendo um retorno aos primórdios da infância e juventude das décadas de 50 e 60, teve como conseqüência recordações de fatos dos tempos que já se foram. Além das divagações das mais diversas e antigas brincadeiras infantis, muitos outros assuntos foram ventilados, como os mais diversos tipos de coleção, como de lápis, de flâmulas e muitas outras.
Abrindo a intimidade de seu lar, logo apareceram discos dos mais diversos, muitos autografados pelo próprio cantor. Musicas antigas também se faziam presentes, algumas com cantores que há muito se foram. Desfilavam discos de 33 RPM (bolachão), compactos simples e duplos. Até os antigos discos de massa de 78 RPM foram vistos. Desfilaram coleção de caixas de fósforos, uma bicicleta antiga, ainda com dínamo ainda funcionando e mais objetos.
Não pudemos deixar de tomar imagens deste objeto que já ultrapassou seus 60 anos, e permanece praticamente ainda novo.
Veja as imagens em:
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
A LIÇÃO
Piracicaba é detentora de múltiplas entidades assistenciais, algumas seculares. E a dura realidade é que todas estas passam habitualmente por dificuldades financeiras. Se elas sobrevivem é graças a dedicação de seus diretores que, acionando a população, angariam recursos para que elas possam subsistir.
Como sempre, uma destas entidades passava por necessidades monetárias. E um dos que colaboravam com a ela, o Sr. B... estava buscando auxílio junto à população mais abastada. Como sempre, contada com a colaboração de seus colegas. Mas existia uma pessoa, o Sr. L..., que era extremamente difícil de obter espórtulas, isto para não dizer impossível. Sempre havia boa desculpa para furtar-se à caridade. Mas tinha um ponto fraco: não conseguia controlar sua vontade de comprar pássaros, desde que tivessem bom trinado.
O Sr. B..., que também era grande apreciador do canto de pássaros, havia conseguido adquirir um curió com gorjeio excepcional a um preço baixo. Isto porque a ave tinha um pequeno defeito. Só cantava quando existiam algumas condições especiais. Caso contrário calava-se e não havia como obter dela um único som.
Esta foi a base com que ele arquitetou plano para obrigar o Sr. L... a colaborar com a entidade assistencial, bem como servir de exemplo àqueles abastados que furtavam-se a auxiliar os necessitados.
Criou uma condição qualquer, fazendo com que o Sr. L... fosse até sua residência e ouvisse o canto do pássaro, fazendo despertar nele o sentimento de cobiça. É claro que foi um caso de amor a primeira vista, e não tardou na mesma hora vir primeira oferta, que por motivos óbvios, foi recusada.
Mais alguns dias passaram e as ofertas começaram a suceder-se com o passar dos dias, em valores crescentes, sempre acompanhadas com novas recusas. Isto somente acirrava seu desejo, e não tinha como refrear seu ímpeto.
O Sr. L... já estava às raias do desespero. Foi mais uma vez até a casa do Sr. B... e dentro da impulsividade, fez oferta que foi irrecusável. Nada mais nada menos mais vinte vezes o valor inicial pago pela ave.

Foi neste momento que o Sr. B... o mandou preencher o cheque, sendo extremamente claro que o valor que estava sendo recebido seria totalmente doado para a entidade assistencial, e que não haveria possibilidade de arrependimento do negócio. Aceita as condições, lá se foi o novo dono do pássaro esbanjando contentamento, desconhecendo ser proprietário de uma ave duvidosa. O cheque obviamente, foi no mesmo dia para a casa assistencial, com recomendação de ser sacado o mais breve possível.
Não demorou muitos dias para que para que o Sr. L... descobrisse a verdade. O curió silenciou... Simplesmente recusava-se a cantar...
Foi então que o novo proprietário entendeu o que estava acontecendo... Que havia sido enganado... Voltou a falar com Sr. B... Tentou de todas as formas desfazer o negócio...
Mas já era tarde demais. Era claro que o cheque, que havia sido doado à entidade assistencial, obviamente já havia sido devidamente descontado. A única sugestão que o Sr. B... poderia dar é falasse com quem havia recebido o dinheiro poderia fazer a devolução do mesmo...
Cabisbaixo, o Sr. L... teve que aceitar a lição de moral E esta foi a devida e justa punição imposta para quem se recusava a colaborar com necessitados...
E muita gente deu boas gargalhadas do fato...


