terça-feira, 10 de maio de 2011

O HOMEM AO PÉ DA CRUZ


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Diz o ditado: a árvore que se dobra, o vento não quebra”. Mas eu digo que não há homem que não se dobre, de uma forma ou outra. Infeliz daquele que pretende fazer o oposto...







Entregue aos seus problemas, obrigações dos mais diversos tipos, se submete aos mais diversos trabalhos, que realmente chegam a ser verdadeiras aventuras. Nestes momentos, em que se encontra unicamente consigo mesmo, mergulhado de um lado dentro da responsabilidade do ato e de outro da arriscada aventura ao cumprir as metas propostas, não pode deixar de estender as mãos para cima e, inconscientemente implorar pelo perdão dos pecados e pelo sucesso da missão.








Disto então surge a confiança e a fé que, desde que obedeça sempre aos preceitos básicos, sempre estará amparado pelos braços de Deus...








Catedral de Piracicaba
11 hs de 10/05/2011

sábado, 16 de abril de 2011

Considerações sobre Liberdade


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O que é liberdade? As respostas são múltiplas, como conjunto de direitos reconhecidos ao indivíduo, considerado isoladamente ou em grupo, em face da autoridade política e perante o Estado; poder que tem o cidadão de exercer a sua vontade dentro dos limites que lhe faculta a lei.

Mas pode ser conceituado também como condição daquele que não se acha submetido a qualquer força constrangedora física ou moral, condição daquele que não é cativo ou que não é propriedade de outrem.

É a possibilidade que tem o indivíduo de exprimir-se de acordo com sua vontade, sua consciência, sua natureza.

No kantismo bergsonismo ou existencialismo sartriano, a potencialidade (nem sempre concretizada) de escolha autônoma, independente de quaisquer condições e limites, por meio da qual o ser humano realiza a plena autodeterminação, constituindo a si mesmo e ao mundo que o cerca.

No estocismo, spinozismo ou no idealismo alemão, a capacidade inerente à ordem cósmica, tb. concebida como natureza, universo ou realidade absoluta, de existir com autonomia e autodeterminação ilimitadas, que corresponde a um poder semelhante alcançável pelos seres humanos, desde que consigam agir e pensar como parte dessa realidade primordial e abrangente, harmonizando-se conscientemente com seus desígnios.

No marxismo, a aptidão por meio da qual as coletividades ou classes, compreendendo a necessidade das leis da natureza e os condicionamentos que pesam sobre a história universal, transformam o real, com o objetivo de satisfazer suas necessidades materiais e determinar a organização geral da sociedade.

No empirismo e utilitarismo, a capacidade individual de autodeterminação, caracterizada por compatibilizar autonomia e livre-arbítrio com os múltiplos condicionamentos naturais, psicológicos ou sociais que impõem predisposições ao agir humano.

Talvez o melhor livro que fale sobre liberdade tenha sido escrito, Liberdade, Liberdade, por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, em 1965.

Quem desconhece o texto, poderá obtê-lo em


e procurar por Liberdade, Liberdade.

O intuito em escrever estas linhas é relembrar de um velho livro chamado Spartacus, escrito por Howard Fast, que foi o fundamento do filme com o mesmo nome, de Stanley Kubrick.

Neste livro evoca-se a luta pela liberdade, por um gladiador denominado Spartacus, (120 aC 70 aC), de origem Trácia, lider da revolta de escravos da Roma antiga, conhecida como a Terceira Guerra Servil, Guerra dos escravos ou dos gladiadores, que comandou a revolta de um exército rebelde com quase 100 mil ex-escravos.

Agora encontramos uma letra que não deixa de ser um Hino à Liberdade, em um espetáculo em exibição na França, com o mesmo nome.

Tomamos a liberdade de traduzir a letra de duas músicas, para que sejam devidamente avaliadas, e anexamos também o endereço em que as mesmas poderão ser vistas.


Enquanto houver homens quebrados e desprezados

Enquanto existirem correntes, chicotes, as prisões

Voltarei

Eu serei milhões

Voltarei

Eu sou a tempestade

Independentemente da época, do local do planeta

Da cor da terra

Embora sempre acabe em derrota

Mesmo que seja eu quem perca


Enquanto houver homens dobrados e humilhados

Enquanto houver minas, campos de algodão

Voltarei

Eu serei milhões

Voltarei

Eu serei sua coragem

Eu serei sua revolta e eu serei a sua raiva

Toda criança que chora

Embora sempre termine em derramamento de sangue

Mesmo que seja eu quem morra,


Enquanto houver homens intimidados, oprimidos

Enquanto existirem correntes, grades de mordaças

Voltarei

Sob os olhos de cima

Eu serei o fogo, morte e a dor

Até que haja o medo de mim

Mesmo que os rebeldes ditadores

Mesmo que seja eu quem reina

Enquanto houver homens quebrados, desprezados

Enquanto existirem correntes, chicotes, prisões

Voltarei

Eu serei milhões

Voltarei

-------------------------------


Eu sou forte

Isso é muito

Quando se tem apenas

Alento para viver

É dado a alguém


Pai, onde estás?

Perdido

A terra é vermelha

E meus lábios estão se movendo

No entanto,

Você disse: "Seja forte"

Você disse: "eu espero "

Desconhecido

Pai

Onde você está? Pai, onde estás?

Perdido?

Nesta vida de cadeias

Feridas e dores

Insultos

Você disse: "Seja duro"

Você disse: "seja orgulhoso"

Onde você está?

Eu espero por mais Eu não vou embora

Quando se tem apenas

Alento para viver

Dá-me...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

RECORDAÇÕES DE MINHA INFÂNCIA 6

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Minha infância sempre foi e ainda é recordada com prazer. O período em que morei no sítio, quando tinha meus quatro, cinco anos foi cheio de aventuras, como explorar uma grota que situava-se perto de casa. Era um local encantado, altas paredes laterais, com samambaias gigantes lado a lado, paredes de piçarra amarelo-avermelhada, da melhor qualidade para fazer minhas modelagens de moleque.









Outra coisa extremamente gostosa era caçar sacis com peneira. Era um eterno correr atrás dos redemoinhos com a peneira, onde não podia deixar de pintar uma cruz em seu centro. Não era difícil pegá-lo com a peneira. O grande problema era tirá-lo debaixo dela e colocá-lo dentro da garrafa. Era a hora onde sempre ele escapava... E eu sempre emburrado com meus eternos fracassos... Diziam que quando capturávamos um, todos os nossos desejos eram realizados, pois ele ficava doidinho para sair de dentro do vidro e fazia qualquer trato para isto...







A grande prova de sua existência era a crina dos cavalos que eventualmente eram trançadas nas madrugadas enluaradas. Quando ouvíamos os animais inquietos durante a noite, sabíamos que quando levantássemos, encontraríamos diversas tranças em seus pescoços...
















O mais gostoso realmente era sair de casa nas noites quentes e úmidas,
um pequeno vidro na mão, e irmos caçar vagalumes. Aquelas pequenas “garrafinhas” de luzes esverdeadas fosforescentes eram uma a uma colocadas dentro da garrafa, e tínhamos então nossas lanternas mágicas, que iluminavam os caminhos que nos abriam as portas aos mais diversos reinos mágicos.






Finalmente a noite caia, a canseira imperava, e, depois de lavarmos os pés, lá íamos nós para a cama, barulhenta com o colchão de palha, o véu estendido sobre a cama afastando os pernilongos. Mas o travesseiro de paina ou marcela era uma delícia e facilmente superava os incômodos barulhos da palha de milho. Na camiseira ao lado da cama, uma pequena lamparina a óleo fazia tremular uma pequena luz amarelada, que insistia em lutar contra o negrume da noite.












Depois viria a diversão com o bodoque, o caçar de rolinhas com a peneira. Como todo moleque de sítio, não podia deixar de caçar passarinhos com a arapuca. Era só colocar esta ao lado da gaiola com um bom pássaro, e depois de algumas horas sempre tínhamos capturado algum, que era levado para um grande viveiro, sob um pé de jambo... E assim sempre tínhamos músicas em casa, com os trinos que nos aveludavam aos ouvidos.










Uma vez por semana passava o frangueiro com sua carrocinha recheada de mercadorias. Neste dia quase sempre ganhávamos doces. E naquele tempo, eles tinham consigo pequenos brinquedos. Ainda alguns ainda restam daquele tempo. Se gostava de jambo e outras frutas, também gostava de limão. E nada como chupar limão com sal, debalde as palmadas que ganhávamos quando éramos descobertos em nossas travessuras. O melhor pé de limão estava no alto do morro, em pleno pasto, onde íamos sempre com cuidado, com medo das cobras. Sempre fomos protegidos, e graças a Deus nunca levamos uma picada deste réptil. Mas o gosto da reinação era alto, e umas palmadas a mais, umas a menos não nos inibiam em fazer as coisas proibidas...








Nas noites de lua cheia sempre íamos de uma casa a outra, onde ficávamos a contar casos, ouvir histórias. Outras vezes, nada como um bom joguinho de baralho, como um rouba monte, ou mesmo um truco para boa diversão. Outras vezes, sentávamos apenas no terreiro, e ficávamos em silêncio ouvir a sanfona chorando ao fundo sua canção...








Quando vim para a cidade com meus sete anos, minha irmã não deixava de trazer alguns brinquedos, que eram adquiridos em São Paulo. E era de uma fase pós-guerra, onde tínhamos navios, aviões e outros objetos rememorando esta negra fase mundial.





Algumas vezes ainda nesta fase dos sete, oito anos, foi a Santos. Era uma aventura sair de Piracicaba, enfrentar uma viagem até São Paulo, depois tomarmos o o ônibus ou o trem e chegarmos ao litoral. Neste tempo foi que consegui estas garrafinhas de coca-cola (5 cm) bem como algumas figuras de Disney. Lá se vão mais de cinqüenta anos, para não falar sessenta... Novas diversões iniciaram-se nesta fase, mas nunca tiveram o sabor que tinham nossas aventuras pelo sítio. Muito da magia foi-se abrandando, mas nunca deixei de freqüentar ainda este mundo mágico de minha meninice, que trazem-me doces recordações de minha infância e meus genitores, que já se foram...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

VISLUMBRES DA INFÂNCIA 5


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Como era gostoso meu tempo de infância. Eu era feliz e não sabia. Gostaria de recordar outros fatos de minha meninice, de meus sete, oito anos de idade, além dos já abordados.


Estava com esta idade no Grupo Escolar Moraes Barros. Naquele tempo, apesar de não termos mais a terrível palmatória (cujas histórias chegavam aos meus ouvidos por minha mãe, também professora escolar), ainda existia o hábito de, em alguns casos, ser colocado pelas antigas professoras, sentado ao lado da lousa, “de castigo”, quando éramos muito barulhentos, indisciplinaodos ou quando não conseguíamos escrever ou ler as palavras corretamente. Era uma situação vexatória, humilhante, mas com ótimos resultados. No dia seguinte sabíamos tudo o que era necessário para não incorrermos de novo naquela situação desagradável, e nos livrarmos das zombarias dos colegas.




Também neste tempo as eleições eram um tempo de diversão. Muitas táticas, hoje totalmente proibidas eram utilizadas, e nós, crianças daquele tempo, não deixávamos de notar e tentar tirar alguma vantagem.




Próximo a minha casa quando era criança, uma série de políticos costumavam alugar imóveis, e faziam deste, seus currais eleitorais. Neste tempo o papel era caro, e nossa diversão era conseguir material para podermos colar ou recortar, usar em nossos bodoques de dedo ou tubos da folha de mamão ou mesmo fazermos nossos aviõezinhos de papel. E também não podíamos deixar de notar pessoas saindo com um pé de sapato, uma prótese dentária (geralmente a inferior) ou outros objetos. Eventualmente até com dinheiro saiam, somente que era apenas metade da nota. O que faltase deveria ir ser pega depois da eleição, desde que o político fosse eleito.





No dia da eleição eram caminhões e mais caminhões que saiam indo buscar eleitores na área urbana e rural, distribuição de refrigerantes e lanches, “santinhos”, e todo o tipo de propaganda impressa. Bandeiras e mais bandeiras circulavam pela cidade, carregadas pelos militantes políticos, fossem a pé, fossem em veículos com grande alarde. Era uma verdadeira festa, que engajava a todos, eleitores e não eleitores. E é claro que havia também as discórdias que ocorriam quando grupos rivais se encontravam. Isto geralmente sucedia nos locais onde ocorriam as votações ou suas cercanias.




E depois da apuração, que demorava alguns dias, era uma verdadeira romaria destas pessoas vindo buscar a paridade do objeto antes conseguido...






Também nas cercanias havia sede de outros partidos. A sempre desculpa que usávamos era que eles queriam se fizéssemos propaganda para eles ou para os adversários. E assim além do almejado papel de propaganda, sempre conseguíamos obter mais alguma vantagem, que logo era convertida nas padarias em doces ou deliciosas balas, para o verdadeiro terror de nossas famílias. Quando descobertos, não raro acontecia alguns aconchegos (palmadas) em nossos traseiros. E destas terríveis travessuras infantis sobraram algumas recordações, como as que decoram este texto, do General Lott, de Adhemar de Barros, Juscelino Kubitschek, de Janio Quadros e outros.







Com este e os outros textos de recordações já mostrados, não poderia deixar de relembrar uma clássica poesia, de Casimiro de Abreu, um pouco mais que sesquicentenária, que a grande maioria dos antigos alunos dos cursos de grupo, ginásio e colegial ainda devem tê-la guardada em algum canto sombrio, quase insondável da memória, e que transcrevemos:








Meus Oito Anos
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Como são belos os dias
Do despontar da existência !
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor !
Que auroras, que sol, que vida,

Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !
Oh ! dias de minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !
Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !




sábado, 25 de setembro de 2010

RALPH, REQUIESCAT IN PACE






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Hoje você se foi. Depois de um longo mês de sofrimentos, você nos abandonou. Todos sofremos demais assistindo sua passagem. Todos lutamos para que isto não viesse a se concretizar, mas não foi possível, o destino não quis que você ficasse entre nós.

Mas o tempo que permaneceu conosco foi extremamente gratificante. Lembro-me a primeira vez que fomos apresentados. O responsável por isto foi meu sobrinho Ricardo, que o trouxe para casa de meus pais. Foi pelos idos de 1984. Ao inicio você era quase que totalmente branco, com algumas manchas pretas esparsas pelo corpo. Era extremamente pequeno e indefeso.

Minha mãe não queria você por perto alegando que quando você fosse adulto, seria grande e daria por demais serviço. Mas apesar dos pesares de imediato nos cativou e de modo irreversível. Ao início mal ficava de pé, e cabia sobre a palma de minhas mãos.

Seguramente não teria mais que uma semana. A história é que foi achado na rua. Nunca acreditei nisto, mas também nunca quis saber de onde era originário. Sempre tive um medo medonho de perdê-lo.

Quando voce entrou em minha vida ainda tinha os olhos fechados e mal comia E o que sem duvidas sabia fazer, e com maestria era chorar a ausencia do calor do corpo de sua mãe.

Durante um tempo isto atormentou a vida de muitas pessoas. Mas elas, as conhecidas bem como as desconhecidas tiveram a suficiente paciência para suportar suas lamúrias.

O início foi difícil. Você não queria saber de comer, a realidade é que ainda nem sabia. Olha lá ainda se sabia mamar. Foi um começo de dar leite na boca, com colher, com mamadeira, protege-lo contra o frio e intempéries da natureza. Depois com os olhos abertos começou a identificar o leite, e a tomá-lo. Mas também nunca dispensou as belas “molhadas” nos locais e horas mais imprevisíveis. Às vezes, sua sede era grande. Não foi por uma só vez que você tomou cerveja, quando ainda era criança. E o pior era que você gostava e sempre queria mais. É claro que eu não podia dar. Era algo impróprio para você.

Mas o tempo correu. Você foi crescendo. Logo minha mão não era suficiente para conte-lo. Foi necessário arranjar uma pequena sacola. E você nunca gostou de ficar a sós. Quando percebia que ia sair, não tinha dúvidas, abria o maior berreiro. Quase sempre você podia acompanhar-me. Mas quando isto era impossível, aí as coisas eram difíceis para mim.

Para acostumá-lo a ficar no quintal, foi outro grande sacrifício. Não queria ficar. E o pânico nunca deixou de dominá-lo. Principalment4e nos dias de chuva, quando trovoadas e relâmpagos povoavam a noite escura. Aí o medo era por demais, e fez inclusive com suas unhas, a porta da cozinha fosse destruída. Isto me obrigou a recobri-la com folha de zinco.

O tempo continuou a correr. O quintal já não era mais suficiente para seu tamanho. Todos os fins de semana, e sempre que podia, colocava-o no carro e íamos passear. Você sempre gostou de passear de carro. A sua alegria era incomensurável. Soltava ganidos de prazer. Latia para os animais. Desafiava-os com seus latidos. Quando solto nos campos, espraiava-se em loucas correrias, esbanjando sua saúde. Sempre foi um pouco desajeitado ao correr. Não só por uma vez tropeçou sobre suas próprias pernas. E aí caia gostoso, embolando-se pelo chão. Algumas vezes saia saltitante, outras, olhava-me com aqueles olhos, tentando entender o que havia acontecido.

Nunca vou esquecer a primeira vez que você nadou. Ficou a olhar para aquele mundareu d’agua do lago da prefeitura. Depois olhou para mim, como que pedindo autorização. Entrou com muito cuidado ao inicio, como que para prová-la. Saiu, e depois de olhar-me, sem dúvidas com receios, deu um magnífico pulo dentro dela. E aí saiu a bater as patas dianteiras. E eu todo preocupado, porque era a primeira vez que escapulia de mim para as suas reinações.

Este esquema continuou por algum tempo. Mas via que era impossível mante-lo. Você necessitava de mais espaço, de ter sua própria vida, seu mundo. Decidi-me então a deixá-lo na chácara. A primeira vez que o levei lá, fui buscá-lo logo à noite. Havia caído uma chuva por demais intensa. A inquietude foi demais. E ao chegar lá, em plena noite, fui encontrá-lo totalmente molhado, coberto de barro, tremendo de frio e de medo. Trouxe-o para casa. Foi uma noite longa, lavando-o no banheiro e secando-o com panos e depois com secador de cabelos.

Houve um período em que você conseguiu viver lá, tendo sua própria vida e espaço. Mas por diversas vezes, o trouxe em péssimo estado para cá, pensando que você viesse a ir. Graças, sempre consegui recupera-lo. Sempre tive o cuidado que não passasse o inverno lá. Você nunca foi amigo do frio. Sempre sofria demais neste período.

Mas sua idade foi avançando. Nestes dois últimos anos que você ficou conosco, senti que apesar de tudo, era preferível priva-lo de ir lá, e tê-lo comigo. Trouxe-o de novo para o pequeno quintal. Aí você dormia, no verão e no inverno, dentro de casa, sobre os tapetes.

Há uns dois meses apresentou um sangramento nasal violento. Você sempre o teve, mas não significante. Fiquei assustado. Todo o quintal ficou lavado de sangue. Ignoro o que foi feito por quem o tratou, mas você nunca voltou bom.

Mas o mês de maio foi terrível. Foi bem ao início. Um dia, você acordou sem poder andar. Suas pernas não obedeciam a seu desejo. Tentava andar, mas elas não se movimentavam adequadamente. E você esborrachava-se no chão.

As coisas não estavam nada bem. Eu estava preocupado. Já tinha notícias de muitos de sua raça que haviam tido problemas similares, e não haviam conseguido resistir. Lutamos, e com todos os recursos e forças possíveis. Por algumas vezes, pensei que fossemos ter sucesso. Mas depois as coisas permaneceriam, e você nada de sarar.

Diversos veterinários foram consultados, muitas medicações foram administradas. Mas não havia melhoras. Você continuava sem forças, sem ânimo. Olhava seu rosto, se sentia que você suplicava pelo auxílio que não poderia ser dado.

Na última noite que o vi conosco, senti em seu olhar a dor e tristeza estampada em seus olhos. Despedi-me, pensando que ainda o haveria de vê-lo no dia seguinte. Mas quando chegou de manhã, soube que você já tinha ido. Nada mais havia a ser feito, a não ser dar o devido repouso ao seu corpo cansado.
Assim, no mesmo dia, você foi levado para ficar junto com ou outros, que muitas alegrias haviam trazido a mim e à minha família. E a única coisa que restou, e que acalentou sua ausência, foi a tenra lembrança de suas alegrias. Seu ânimo inquebrantável, e as sensações ímpares que transmitiu durante sua passagem conosco.

DIVAGAÇÕES


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Há momentos que, dentro de uma retrospectiva existencial, começamos a reavaliar série de fatos, alguns vivenciados, mas a grande maioria em que fomos testemunha durante nossa existência.
Ontem surgiu a vontade em divagar sobre as experiências, implicações existenciais das gerações pós-guerra, e as mais diversas influências que foram submetidas. Oriundas basicamente de uma criação férrea, onde as rédeas familiares e sociais eram extremamente curtas, estas pessoas, devido a uma série de fatores, que citaremos alguns, despiram-se do bridão que eram submetidas, e começaram a andar cada um em seu próprio passo e pelos locais que lhe mais apetecessem.
Há 50 anos iniciou-se um movimento de contra cultura, com a formação de comunidades hippies, que foram sedimentados com o “Summer of Love” (1967) e o Festival de Woodstock (1969).
Há aproximadamente 40 anos, quando entrou no circuito “Satyricon”, de Frederico Fellini (1920-1993), obra que ressalta os costumes sobre a Roma antiga. Seguramente o caráter de exposição deste filme, associados a outros contemporâneos, como “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick (1928-1999), foram importantes na modificação existencial dentro de uma juventude que via em “Hair”, “Oh Calcutá”, dos movimentos contra culturais já mencionados e outros, novas formas de se encarar a motivação existencial como uma busca de novos objetivos, valores e sensações (muito diferentes dos impingidos pelos genitores e a sociedade), em que viessem a constituir em mundo onírico, a busca ilimitada pelo prazer descompromissado, tendo como apoio “As Portas da Percepção” (1954) de Aldous Huxley, Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio (1939) de Henry Miller (1892-1980), os 120 dias de Sodoma do Marques de Sade (1740-1814), e ainda solidificados nas conseqüências diretas e indiretas na juventude, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Coréia e incluso a Guerra do Vietnam. Assim como o livro 120 dias de Sodoma, Laranja Mecânica ousou a esboçar os “deleites” criminosos de agressão, estupro e assassinato, ignorando o sofrimento das vítimas e desrespeitando o mínimo da dignidade e dos direitos humanos, mas também não deixou de retratar a resposta de uma sociedade vingativa, malévola e cruel com seu algoz, e tudo isto regado ao som do 4º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven. Se fosse apenas para se mostrar condicionamentos psicológicos, haveria outras formas mais acessíveis que esta contínua violência grátis. Só nos resta lembrar sua última parte da 9ª de Beethoven, onde está colocado o Ode à Alegria, de Schiller (1875), que tem significado extremamente profundo:

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!

Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!

Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.

A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se connosco!

Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus!

Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.

Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.

Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.


A “descoberta” ou melhor dizendo, a conscientização da presença de um novo mundo, basicamente onírico, mas passível de ser saboreado parcialmente, paralelo com o nosso, já era referida por William Blake (1757-1827) no conceito que "Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito". Esta será uma das bases para a concepção de “As Portas da Persepção”. Sigmund Freud (1856 1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961) também enveredaram-se pelo mundo onírico para análise e entendimento de distúrbios mentais. Esta foi a justificativa para o uso de drogas, fosse como uma chave que abrisse porta para novos mundos, seja para o uso psiquiátrico das drogas, processo atualmente não mais aceitos.
Poderíamos classificar no mínimo como surrealista todas estas colocações anteriormente citadas.

Independente de seus personagens centrais Encolpio, Gitone e Ascilto (de Satyricon), que fundamentam as aventuras dos personagens e seus valores morais, que oscilam dentro da liberdade irrestrita e vivência de libertinagem sem limites, da lauta refeição celebrando a morte, do minotauro e todos os outros conceitos expressos por Gaius Petrônius Arbiter (27-66) em plena época de Nero, da visão de Kubrick, de Blake, de James Rado (1932-) e outros (Hair), de Kenneth Tynan (1927-1980) (Oh Calcutta), o que realmente observamos é um eterno ciclo existencial dos fatos, da busca do prazer, de “novas experiências” repetitivas, onde os antigos conhecimentos caem no esquecimento e são “reinventados” posteriormente por outras pessoas, até a real tomada de consciência dos fatos, como o narrado no excepcional texto de Fernando Pessoa, no Cancioneiro:

Conta a lenda que dormia

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Se falarmos sobre vida e morte, ambivalências e receios do ser humano, sobre incapacidade de enfrentarmos situações do sol nascente, da inquietação de que depois do poético pôr do astro rei, que este não mais venha a brilhar nos céus, se desejamos moldar o amor homoerótico como forma homofóbica de relacionamento, de termos medo dos “elefantes” e desejarmos ser simples “formiguinhas” dentro do mundo de “Cléo e Daniel” (Roberto Freire 1927-2008), bem como enfrentamos o papel de Gaby ou Benjamim, tudo isto são opções que nascem e se exteriorizam, que se moldam quando de posse de nossas vivências e experiências, quando atingimos a capacidade de, controlando o superego, mesclarmos o ego e o id de forma mais harmoniosa possível. Reprimindo o superego ao maior nível até o ponto de aniquilá-lo, poderíamos desfrutar de realizações de nossas maiores realidades íntimas de uma forma mais e mais crescente até atingirmos um ápice, onde se encontram, quase sempre escondidos dentro do mais profundo âmago do labirinto de nossas mentes, nossas mais secretas ambições, mas sempre se constituirão de experiências extremamente perigosas, de conseqüências totalmente imprevisíveis. Existem, pois, dentro de cada um de nós, inúmeros Mazzaropi, John Wayne e outras miríades de pessoas, todas com seus grllhões. Existe Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Mas não dão vislumbres de viverem a não ser em nossos maiores e soturnos pesadelos. Basta apenas, dentro da realidade diária, termos a capacidade e coragem de entreabrirmos as portas onde moram para ver o que ocorre... Seguramente não iremos encontrar muitos “Sidarta”, mas seguramente diversos “Lobos da Estepe”. Se ousarmos escancarar as portas e rompermos as amarras, primeiramente iremos ver, observar, sentir, e seguramente depois seremos obrigados a conviver, se não formos englobados e até mesmo totalmente dominados por todos estes demônios libertos que habitam no nosso íntimo...

Não devemos esquecer que o ser humano tem ódio e medo do homem total e irrestrito, pois constitui a medida de sua própria ineficiência e frustração interior. Constitui este último a âncora e ponto referencial onde se cria a possibilidade de avaliar a medida da incapacidade de cada ser humano, o que é intolerável, pois o conscientiza de seus próprios valores íntimos, muitos dos quais seguramente obscuros e violentamente reprimidos. Exemplificando o fato, entre múltipos exemplos plausíveis, basta relembrar Édipo Rei (Sófocles), Electra (Sófocles), Relatório Kinsey (Alfred Charles Kinsey 1894-1956) entre outros.

Talvez Joseph Rudyard Kipling (1865-1936) tenha a mais significativa colocação existencial quando se refere em “Kim” à “Roda da Vida” (Bhavachakra) e introduz este conceito criado pela extinta escola Savastivada.

Se desejarmos avançar mais dentro do estado metafísico do espírito, mas descompromissado dos valores religiosos passados ou atuais, nada melhor que o “Bardo Thödol”, para vislumbrar valores etéreos que se sublimam, e como nuvens de fumaça, sobem esvoaçantes pelo ar, mesclando-se com ele até desaparecerem.

Em suma, se podemos analisar ocorrências sob um prisma material, mesclando as observações de fatos passados sob a visão atual (independente de sua validade), em hipótese alguma podemos olvidar o exame dos mesmos sob o prisma psicológico, conseqüência acarretadas pela mescla das vivências das realidades existenciais com o mais profundo de nosso interior.
Dentro da maturidade que se segue ao se varrer quase todas as experiências possíveis, quando atingimos a fase de “espectador como Sidarta, vendo o rio passar...”, acordamos para algumas realidades que não conseguimos ver dentro da impetuosidade anterior, que reza “um povo sem passado é um povo sem futuro”, e o mesmo se aplica ao conceito de família, e mesmo ao próprio conceito pessoal.
Uma última consideração que não poderia furtar-me a fazer em relação a tudo que foi abrangido neste ensaio, como disse Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) em sua imbatível obra “O Pequeno Príncipe”, “o essencial é invisível aos olhos”.