Antigamente, quando morávamos em área rural, nossa formação - em contato contínuo com a natureza - tinha características peculiares. Acordava-se cedo, até mesmo antes do raiar do sol. A primeira coisa a ser feita era ligar o rádio, pois assim ouvíamos algumas músicas, e também recados que eram enviados da cidade para nós. É bom rememorar que tneste tempo não tínhamos energia elétrica. Quem fornecia energia para o rádio era a velha bateria (acumulador) de carros.
Aí o fogão a lenha era aceso, para preparo da primeira refeição. Após o café, ajudava-se a revolver a palha dos colchões enquanto outra pessoa ia estendendo as camas. Cuidava-se dos animais, ao cair da tarde saía-se em busca dos ovos de galinha e de gravetos secos para acender o fogão a lenha na madrugada seguinte. Sacrificava-se esporadicamente algum animal para poder dele fazer a refeição. Moía-se a carne de porco para fazer lingüiças, que ficavam semanas secando.
Trocavam-se os ferros de brasas esfriando com outro de rubras para passar roupas. Desde criança, incutia-se o conceito de responsabilidade e de divisão de trabalho. Para podermos exigir no futuro um serviço bem feito, tínhamos desde a infância a saber como fazê-lo bem feito. E ainda sobrava tempo para subir nas árvores e deliciar-se com as frutas, bem como correr no final da tarde para o rio tomar banho com os outras pessoas e nadar. E não se podia esquecer de lavar os pés antes de deitar.
Ir à roça de feijão ou de algodão eram coisas também proibidas, quando meninos. O risco de ser picado por cobras era muito grande. Também tínhamos de olhar com cuidado as árvores, pois muitas vezes aí também estavam as víboras. Por diversas vezes na infância colhi flores para enfeitar a urna de alguém que havia partido em virtude disto. Tínhamos de ficar sempre atentos a qualquer coisa diferente. Se estivéssemos de cavalo, o perigo era pisar em algum enxu de vespas. E neste caso a ordem era pular do animal e ficar deitado quieto no chão até que o enxame fosse embora. Levava-se menos picadas. A realidade é que a mínima distração poderia causar a morte. Poderia não haver uma segunda oportunidade. Desde a infância era imprimido de modo indelével o conceito do perigo e da morte. Somente assim é que teríamos mais possibilidades de sobreviver.
À noite, o lampião de querosene, espraiando sua luz amarelada, criando sombras fantasmagóricas, iluminava o jogo de baralho, enquanto a sanfona (ou harmônica) arrancava seus sons à distância. Outras vezes sua luz tremulante, se fazia presente para podermos ler algum livro, ou era quando meu pai sentava-se em sua mesa e fazia a escrituração diária. Mas habitualmente dormia-se cedo. A eletricidade, gerada a custa de baterias, era somente utilizada para o rádio. No restante da noite, quebrando a escuridão negra tal breu, uma pequena lamparina a óleo se fazia presente, rasgando o negrume noturno.
Meu pai se faz ainda presente em minhas recordações quando andávamos pelo sítio, ou à noite, contava histórias ou fazia com as mãos as mais diversas sombras serem projetadas na parede do quarto. Eram quando víamos cabeça de cachorros, pássaros, rostos humanos e as mais diferentes formas imagináveis tomarem vida na parede caiada. Outras vezes sentava-se nos troncos de madeira no terreiro e ficava-se jogando conversa fora com os outros moradores do sítio. Dou graças de ter tido esta experiência fantástica que meus pais possibilitaram.
Eram valores bem diferentes que existiam na área urbana. Agora aqui se andava de carrinho de rolimã, jogava-se futebol na rua, divertíamos com brinquedos mais sofisticados, tínhamos que colocar calça azul e camisa branca para ir à escola. Tínhamos de preparar as lições, estudar... estudar... estudar...
Mas tínhamos nossas molecagens. E a mais gostosa, que vem à mente, era colocar um prego de pé entre os paralelepípedos da rua, e ficar apostando que carro iria passar em cima dele e ficar com o pneu furado... tudo ia bem até que nossos pais descobriam a reinação, e acabávamos com algumas chineladas em nosso traseiro.
Mas chegavam as férias. E corríamos de novo para a área rural. No sítio havia lugares que éramos proibidos de irmos a sós. A água era um grande atrativo, mas tínhamos de ter sempre alguém conosco. E para não esquecermos, sabíamos que esta era a lei. Primeiro era o aviso, depois... a cinta bem aplicada na bunda era a certeza absoluta de nossos pais que a lição não seria mais esquecida.
Foi assim que descobri que era proibido brincar no paiol de milho. Também era proibido ir onde se guardava algodão... mas era tão gostoso ficar pulando nele... (onde se podia até vir a morrer sufocado se afundássemos demais).
Havia o quarto de ferramentas. Também era proibido entrar nele. Era ali que ficavam as ferramentas de corte, bem como os venenos utilizados. Geralmente ficavam muito bem fechados.
Era proibido brincar com a lanterna. Ela era reservada para iluminar à noite algum animal selvagem que atacasse as galinhas ou outras criações. E também havia a terrível espingarda, pendurada atrás da porta, coisa sempre cobiçada de se ter às mãos. Ela era quem liquidava estes intrusos noturnos. E era o maior atrativo dentro da casa grande e a peça que mais nos enamorávamos para ter em nossas mãos.
Tinha eu meus seis ou sete anos, quando meu pai resolveu me ensinar a atirar e algumas coisas a mais. Um belo dia pegou a cartucheira, explicou como funcionava. Depois orientou a firmá-la com toda a força contra meu ombro, mirar no animal e puxar o gatilho.
Assim o fiz. O tiro foi de um lado, e eu caí de costas com a violência da explosão. Com o ombro dolorido, levantei-me e fui ver minha primeira caça. Um pobre passarinho estava caído no chão, debatendo-se entre a vida e a morte, piando sem parar. E eu não podia entender comigo mesmo o porque que havia feito aquilo... fiquei vendo a agonia do pobre pássaro, até que cessaram seus movimentos e calou-se seu trino. Olhava para meu pai ao meu lado pedindo ajuda, e ele quieto, sem falar uma única palavra ou fazer um único gesto. Foi uma ótima lição de ele me deu.
Este foi meu primeiro e último tiro contra alguma coisa viva que dei em minha vida. E foi também, seguramente o que criou uma verdadeira obsessão, apesar de ter alta inclinação por matemática e física, a dedicar minha existência a cuidar de doentes. Foi assim que optei por ser médico.
Há coisas interessantes que ocorrem durante nossa existência. Há fatos corriqueiramente repetitivos e os habituais, que são a grande maioria das ocorrências. Mas também há os raros, como ver ser fundada uma cidade, e ainda raríssimo, como ver uma capital de um país ser mudada, como o foi a do nosso país para o vasto sertão central do Brasil. Independente de seu contexto político bem como de todas as iniciativas que ocorreram para sua existência, bem como conseqüências de sua nova localização e atuação, a realidade é que pouquíssimas gerações (e pessoas) tiveram a oportunidade de ver um fato desta magnitude acontecer.
E neste aspecto, seguramente a fundação de Brasília é única. A grandeza inerente de ver uma nova cidade desabrochando em pleno sertão, a segunda mudança de capital ocorrida no Brasil, é sensação única e inexplicável a não ser para quem teve esta oportunidade.
Nos tempos que a Capital Federal se situava em Salvador, ocorreram invasões por estrangeiros (ingleses e holandeses).
A idéia de sua mudança para a área central (1761) já era defendida pelo Marquês de Pombal (1699-1782) e pela Inconfidência Mineira (1789). Em 1823 José Bonifácio (1763-1838) defendia a transferência da Capital para uma área central. Em 1891 a Assembléia Constituinte aprovou a mudança de Capital, que foi demarcada por Luis Crulz (1848-1908), Diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Mas, as tormentas governamentais que ocorreram nos anos vindouros fizeram com que a idéia permanecesse adormecida.
Ela foi despertada novamente com a entrada de Juscelino Kubtscheck de Oliveira na Presidência da República. E a coroação da idéia ocorreu precisamente em 21 de abril de 1960, com a inauguração de Brasília.
Retornando a idéia inicial, há oportunidades únicas da vida de algumas pessoas. E minha família não poderia deixar de testemunhar tal fato. Independentemente das dificuldades a se enfrentar, seríamos testemunhas da fundação de Brasília. Minha mãe Antonieta, minha irmã Maria Ruth, meu irmão Rossini com sua esposa Neyde e eu nos mobilizamos para esta viagem.
Saímos de Piracicaba três dias antes da inauguração, indo para Brasília em um Jeep. Nas cidades dormíamos em hotéis, e quando estes não existiam, repousávamos como os outros, na beira das estradas. Enfrentamos o asfalto, as estradas de terra e chegamos um dia antes da inauguração. Em Brasília não havia restaurantes onde se fazer as refeições. A alimentação era distribuída pelo Exército, em caixas de papelão, com dois lanches, dois ovos cozidos, uma fruta e um pequeno pacote de sal em seu interior. Não faltava ampla distribuição de leite e água. Também estava lá o sino que badalou anunciando a morte de Tiradentes (1746-1792), agora anunciando com suas badaladas a nova Capital Federal. E assim fomos testemunhas junto com candangos e outras pessoas de ver surgir uma nova cidade e Capital do Brasil.
E de toda esta experiência, algumas palavras ficaram indelevelmente marcadas em nossas mentes:
"Deste Planalto Central, desta solidão em que breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino". Juscelino Kubistchek
Os maiores agradecimentos à família, que nunca deixou de ter o espírito de conhecimento no sangue, permitindo que em minha infância conhecesse o Brasil.
E, de todas as recordações, a mais palpável é um pedaço de mármore arrendodado, branco, onde, com a letra de minha mãe, esta escrito: Brasília, 21 4 1961.
Hoje, os mais de sessenta vivem em um tempo diferente. A infância, a juventude, a adolescência, a vida adulta, tudo foi diferente. Andava-se de carrinho de rolimã, saia-se de casa e não havia necessidade de um celular a nos acompanhar. Dormia-se com janelas abertas nas noites de verão com certeza que não seria assaltado. E muitas coisas mais.
Não estou querendo julgar se foi melhor ou pior. Não é isto que está em jogo, mas sim o fator da recordação, da adaptação e aceitação de novos valores.
Coisa gostosa era chupar jabuticaba no pé, brincar com o estilingue, nadar no rio e sair correndo atrás de redemoinhos para caçar saci com a peneira. Era um tempo repleto de atividades físicas e fantasias. Se nada havia para fazer, deitava-se no chão, se ficava a ver as nuvens passarem. E logo vinham as semelhanças com objetos do cotidiano...
Hoje, o computador e os jogos eletrônicos tomaram conta de toda a atividade. O importante é a telinha em frente ao rosto. O resto é resto...
Se de um lado temos pessoas com maior grau de cultura, de outro temos jovens que deixaram de ter infância. São os tempos modernos e o preço que pagamos por eles.
Mas eis que de repente, mergulhamos neste mundo já superado (segundo alguns) e encontramos o antigo ar de magia quando criança, do cabo de uma vassoura surgiam os melhores alazões ou picaços. As peladas eram inevitáveis ao final da tarde e aos fins de semana. Deliciávamos vendo, por exemplo, o carrinho que se aproximava da beirada da mesa e mudava de direção, não caindo. O mais importante era o imaginário, e não o objeto em si.
Tudo isto está sendo dito para enaltecer um casal que conheci esta semana, o Sr. Francisco Joaquim... e sua esposa. Além das atividades profissionais, também dedicam parte de seu tempo a conservação de seus pequenos objetos, hoje raridades.
Este ambiente, como que fazendo um retorno aos primórdios da infância e juventude das décadas de 50 e 60, teve como conseqüência recordações de fatos dos tempos que já se foram. Além das divagações das mais diversas e antigas brincadeiras infantis, muitos outros assuntos foram ventilados, como os mais diversos tipos de coleção, como de lápis, de flâmulas e muitas outras.
Abrindo a intimidade de seu lar, logo apareceram discos dos mais diversos, muitos autografados pelo próprio cantor. Musicas antigas também se faziam presentes, algumas com cantores que há muito se foram. Desfilavam discos de 33 RPM (bolachão), compactos simples e duplos. Até os antigos discos de massa de 78 RPM foram vistos. Desfilaram coleção de caixas de fósforos, uma bicicleta antiga, ainda com dínamo ainda funcionando e mais objetos.
Seguramente o ponto alto foi quando apresentou um brinquedo, segundo ele de 1949, que cuida e mantém com todo o carinho. É um brinquedo americano, ainda a corda, onde diversos carrinhos movem-se por uma pista.
Não pudemos deixar de tomar imagens deste objeto que já ultrapassou seus 60 anos, e permanece praticamente ainda novo.
Só podemos agradecer ao Sr. Francisco José e esposa pela gentileza do atendimento, e enaltecer a sua dedicação a manutenção de objetos, que seguramente são parte da história.
Piracicaba é detentora de múltiplas entidades assistenciais, algumas seculares. E a dura realidade é que todas estas passam habitualmente por dificuldades financeiras. Se elas sobrevivem é graças a dedicação de seus diretores que, acionando a população, angariam recursos para que elas possam subsistir.
Como sempre, uma destas entidades passava por necessidades monetárias. E um dos que colaboravam com a ela, o Sr. B... estava buscando auxílio junto à população mais abastada. Como sempre, contada com a colaboração de seus colegas. Mas existia uma pessoa, o Sr. L..., que era extremamente difícil de obter espórtulas, isto para não dizer impossível.Sempre havia boa desculpa para furtar-se à caridade. Mas tinha um ponto fraco: não conseguia controlar sua vontade de comprar pássaros, desde que tivessem bom trinado.
O Sr. B..., que também era grande apreciador do canto de pássaros, havia conseguido adquirir um curió com gorjeio excepcional a um preço baixo. Isto porque a ave tinha um pequeno defeito. Só cantava quando existiam algumas condições especiais. Caso contrário calava-se e não havia como obter dela um único som.
Esta foi a base com que ele arquitetou plano para obrigar o Sr. L... a colaborar com a entidade assistencial, bem como servir de exemplo àqueles abastados que furtavam-se a auxiliar os necessitados.
Criou uma condição qualquer, fazendo com que o Sr. L... fosse até sua residência e ouvisse o canto do pássaro, fazendo despertar nele o sentimento de cobiça. É claro que foi um caso de amor a primeira vista, e não tardou na mesma hora vir primeira oferta, que por motivos óbvios, foi recusada.
Mais alguns dias passaram e as ofertas começaram a suceder-se com o passar dos dias, em valores crescentes, sempre acompanhadas com novas recusas. Isto somente acirrava seu desejo, e não tinha como refrear seu ímpeto.
O Sr. L... já estava às raias do desespero. Foi mais uma vez até a casa do Sr. B... e dentro da impulsividade, fez oferta que foi irrecusável. Nada mais nada menos mais vinte vezes o valor inicial pago pela ave.
Foi neste momento que o Sr. B... o mandou preencher o cheque, sendo extremamente claro que o valor que estava sendo recebido seria totalmente doado para a entidade assistencial, e que não haveria possibilidade de arrependimento do negócio. Aceita as condições, lá se foi o novo dono do pássaro esbanjando contentamento, desconhecendo ser proprietário de uma ave duvidosa. O cheque obviamente, foi no mesmo dia para a casa assistencial, com recomendação de ser sacado o mais breve possível.
Não demorou muitos dias para que para que o Sr. L... descobrisse a verdade. O curió silenciou... Simplesmente recusava-se a cantar...
Foi então que o novo proprietário entendeu o que estava acontecendo... Que havia sido enganado... Voltou a falar com Sr. B... Tentou de todas as formas desfazer o negócio...
Mas já era tarde demais. Era claro que o cheque, que havia sido doado à entidade assistencial, obviamente já havia sido devidamente descontado. A única sugestão que o Sr. B... poderia dar é falasse com quem havia recebido o dinheiro poderia fazer a devolução do mesmo...
Cabisbaixo, o Sr. L... teve que aceitar a lição de moral E esta foi a devida e justa punição imposta para quem se recusava a colaborar com necessitados...
Quando se aproximam as festas natalícias, fatos há muito tempo passados começam fluir à mente com mais intensidade e tomam formas mais consistentes. Rememora-me então, ainda quando crianças, com não mais de seis ou sete anos, sentados no tapete, montando o presépio ou enfeitando a árvore, ouvíamos nossos avós, em suas cadeiras de balanço, lerem ou contarem suas histórias, que até hoje ressurgem à mente.
Era um momento de magia, no início da noite, as luzes a piscar, e no mistério infantil que envolvia o natal, isto era quase que sobrenatural.Agora estas recordações constituem nossa herança cultural, transmitida por aqueles que há muito se foram. E entre as muitas que ouvíamos, esta era uma delas, que ousei chamar de...
Milagre de Natal
(in memorian Antonieta Renna Busatto)
Há muito e muito tempo, havia uma menina, com seus nove ou dez anos, de olhos azuis profundos. A vida não era feliz com ela, andava envolta em seus andrajos, quase nunca se banhava, a fome geralmente estava a devorar suas entranhas. Comia o que lhe davam pelas casas, dormia onde pudesse abrigar-se dos meninos, da chuva ou do frio. E esta situação perdurava por anos.
Agora, em plena véspera de natal, mais uma vez submersa em gélida ventania, caminhava buscando lugar seguro para abrigar-se do mal maior que ainda poderia lhe acontecer. Em suas vestes esfarrapadas existem mais buracos que tecidos, que mal cobrem o trêmulo corpo por onde o frio insiste em penetrar.Segura entre os enrijecidos dedos o seu grande prêmio do dia, uma caixa de fósforos com alguns palitos. Quem a havia dado insistia que os palitos eram mágicos, e somente deveriam ser acesos durante a noite, para que ocorresse um milagre.
Andando pela fria cidade, todas as casas fechadas, onde luzes fluíam de seu interior, mostrando a alegria e felicidade nos lares. E ela sozinha, se sentindo perdida naquele espaço que tudo lhe negava. E não lhe abandonavam a mente as palavras daquela velhinha, coberta de rugas, mas com uma pele tão jovial. “Só os acenda durante a noite, para que ocorra o milagre...”
De uma mansão à frente, com suas ostentosas janelas e portas, todas ornadas com enfeites das mais variadas cores e formas, chega o som de músicas natalinas, o odor dos alimentos que jamais saborearia... no seu interior conseguia vislumbrar uma árvore de natal de tamanho gigantesco, resplandecente em suas luzes e enfeites. Aos seus pés, caixas e mais caixas com presentes. Crianças corriam em todos os quartos que podia divisar fazendo algazarras, enquanto os adultos conversavam em suas confortáveis poltronas. Mais uma vez a saudade agitou seu pequeno corpo... As doces lembranças de um tempo há muito ido... A imagem de seu pai e mãe... E o carinho que tinham com ela.
Mas para ela, enjeitada da sociedade e de todos, não havia aonde ir a não ser abrigar-se em um velho celeiro atrás do palacete. Temia pedir abrigo e vir a ser enxotada. Lentamente aproximou-se da construção. Encontra a porta, que range levemente quando é empurrada e se abre.
Mal consegue ver o que há a sua volta. Uma charrete... Instrumentos de cuidar da terra... Alimentos para animais. Fecha a porta e procura por um lugar onde possa se sentir mais confortável. Em um canto, pendurada na parede, uma sela, e caído ao chão, observao baixeiro e alguns panos velhos, usados para encilhar animais. Deita-se sobre eles e com outro se cobre. Parece que o vento frio ficou um pouco além, e não cortava tanto.
Nas mãos, onde ainda permanecia firmemente seguro o misterioso presente, vinha à lembrança das palavras murmuradas de quem havia dado o mimo: “São fósforos mágicos. Deixe-os para acender para uma nova vida, onde haja esperanças de uma existência melhor, com alegrias incomensuráveis. Terá que acendê-los uma após o outro, e quando fizer isto, alguma coisa maravilhosa acontecerá...”
Nada mais havia de esperar daquela noite fria e gélida, a não ser um verdadeiro milagre. Com os borborigmos na barriga, a esquecer a fome, o frio e os dedos enrijecidos por êle, com dificuldades abriu a caixa, tomando cuidado para não perder os poucos palitos.
Tomou de um deles e o acendeu, fazendo que pequeno clarão surgisse. O frio afastou-se mais um pouco, dando lugar a uma brisa morna que a envolveu. E dentro deste círculo luminoso mágico de que a envolvia meio aquecida, vislumbrou sua mãe, que há muito tempo não via. Estava um pouco longe, mas docemente a chamava com as mãos, o rosto risonho, fazendo prenúncios de uma existência melhor. Não podia acreditar no que via. Permaneceu extasiada, dentro daquele feitiço, que se recusava a acreditar. Tão concentrada estava, esqueceu até o fósforo que ao apagar-se, queimando seus pequenos dedos, fez com que as cenas desaparecessem.
Dentro da mansão, ainda chegavam os ruídos da festa. Gritos de alegria, exacerbações de surpresas, odor de alimentos. Mas agora não incomodavam tanto. Estavam muito mais distantes, e neste momento eram quase inexistentes. Aquele celeiro realmente estava impregnado de certa magia. Ainda estava a se beliscar, mal acreditando no que havia visto. Sua mãe, com suas belas roupas ainda quando era criança... As saudades invadiram seu coração e uma lágrima rolou de seus olhos. De dor, tristeza, ausência, todas incomensuráveis. Sentiu novamente o frio voltar a envolvê-la. Mas do lado que havia visto sua mãe, parece que havia um pequeno calor a mais. Pegou os trapos com que se envolvera e mudou de lugar. Foi para aquele canto, ele parecia mais mágico. Balançou a caixa de fósforos, havia mais alguns palitos. Com todo o cuidado acendeu o segundo.
O frio foi espantado de seu lado. Chegara mesmo a sentir algum pequeno calor. O tremor que envolvia seus dedos e corpo praticamente desapareceram. Agora podia ver sua mãe com mais detalhes. O rosto risonho... Face corada... Mãos estendidas... Pequenas rugas que talhavam suas mãos...Chegou mesmo até a ouvi-la sussurrando seu nome, palavras que há muito tempo não ouvia... Promessas de viver sem sofrimentos... Um futuro com uma vida melhor... A satisfação de ter sempre por perto sua genitora... E de súbito a brasa do fósforo atingiu seus dedos pela segunda vez... O pequeno pedaço que lhe ainda segurava voou para longe com o movimento involuntário da queimadura, e dirigindo a parte dolorida aos lábios ressequidos, fez com que a dor tornasse mais branda.
Estava assustada. Estes fatos nunca haviam ocorrido com ela. Misturava no seu interior uma sensação de dúvidas com angústia. Não queria, mas as lágrimas rolavam de seus olhos. As doces recordações da mãe e do pai... O pequeno cachorro que enchia o espaço da casa onde morara... A felicidade em ter um lar... O desespero quando os dois se foram... Como fora difícil sepultá-los... Um logo após o outro... Os anos difíceis sobrevivendo na rua...
Novamente balançou a caixa. Havia um último palito. Tinha que acendê-lo. Necessitava uma vez mais saber o fim da história. Queria sentir mais uma vez a cálida presença da mãe. E havia o receio que ele negasse fogo... Era sua derradeira chance.
Com cuidado e receio riscou o último palito. Uma primeira vez apenas algumas fagulhas apareceram e morreram na escuridão. Uma segunda vez... E nada a acontecer. Estava assustada. Havia antevisto tantas coisas belas e felizes. E agora se via ante o risco de perder tudo. Riscou o fósforo uma terceira vez, rezando para nada acontecer, para ter sucesso. Eis que ele explode em luz. Sua mãe agora já estava ao seu lado, alegre e brincalhona como sempre fora, e ela recordava... Tudo ao seu redor havia mudado. Quase que não podia acreditar no que via... O interior do galpão sumira, e agora em seu lugar existia um campo verdejante, pontilhado em todas as cores... O perfume que dele exalava era coisa maravilhosa. Sua mãe vestia belos trajes, sentada entre as miríades de flores. E quando olhou a si própria, viu que suas vestes não eram mais as mesmas. Os farrapos haviam desaparecido, dando lugar a belo vestido. A fome não a incomodava mais. Havia saciada. Assim também foi com o frio e todos os outros receios. Era como esta vivesse de volta ao lar novamente. E sentiu a felicidade explodir no seu interior como há muito tempo não ocorria.
Deitou-se ao colo da mãe. Os passarinhos cantavam, o sol resplandecia... Sua mãe acariciava seus cabelos, e finalmente a menina fez algo que há muito tempo não fazia: sorriu um riso espontâneo, que realmente vinha do âmago do coração.
A mãe também sorriu. As duas se levantaram, e de mãos dadas começaram a andar. Caminharam... e suas imagens perderam-se no infinito. Realmente, desta vez a menina nem chegou a ver ou sentir quando o fósforo apagou-se entre seus dedos.
Pela manhã, os serviçais, ao abrirem o celeiro, encontraram o corpo da menina, todo encolhido, alquebrado pela fome e doença. Mas não conseguiram entender uma coisa... O porquê dos olhos abertos, voltados para a eternidade, e mais ainda, o porquê do sorriso de total alegria e satisfação que envolvia toda aquela face esquálida e lânguida.
Dentro de nossa vivência e experiência profissional como médico, agora já encerrada, observamos diversas fases existenciais dentro das expectativas do ser humano, que se tornam extremamente mais exuberantes quando associadas à presença de doenças graves ou terminais que podem assolar ao indivíduo. Há cinco fases distintas como o homem encara a doença: a fase da negação, depois da raiva, a da negociação, da depressão e por último a fase de aceitação.
Ao nosso ver, as três primeiras fases são as mais importantes, pois, se de um lado reconhecem a inexorabilidade do destino e existência humana (principalmente aos observadores externos), também implicam na desempenho reacionário do livre arbítrio em poder se rebelar e lutar por alguma coisa que não se aceita, não se tolera, e se classifica como totalmente inválido e impossível (às vistas do doente). As duas últimas podem ser encaradas como fases de derrota, pois implicam no reconhecimento, da entrega e da submissão, onde simplesmente tudo que acontece, por pior que seja, é simplesmente a senda que deve ser percorrida, até se culminar no apocalíptico final da existência, seja, o aniquilamento e morte do ser humano.
Aqueles que subsistem nas primeiras fases são os verdadeiros manipuladores do destino, aqueles que constroem e, mesmo depois de mortos, sua existência foi tão forte e marcante, que conseguem fazer com que sua imagem perdure vívida na mente de outros.
Estes conceitos podem ser estendidos por similaridade a praticamente tudo que o ser humano vivencia. E inclusive aos próprios valores existenciais em relação aos fatos que aparentemente mostram-se como corriqueiros dentro da existência.
Nhô Serra
Fomos solicitados a escrever sobre determinada pessoa, piracicabana, que se projetou como figura ímpar dentro da cultura popular, Sebastião da Silva Bueno, conhecido como Nhô Serra, vulto de projeção no cururu por aproximadamente três décadas, iniciando-se aproximadamente na metade do século XX. Foi um dos baluartes da arte repentista do Vale do Médio Tietê.
Apesar de não termos conhecido-o pessoalmente, o caminho de busca de seu perfil como pai e homem público, as marcas deixadas por sua passagem nos extensos evívidos depoimentos relatando sua vida, sua luta, tanto nas observações de seus familiares (esposa e filhos) como contemporâneos, aqueles que não apenas o conheceram, mas conviveram com ele no dia a dia, o demarcaram como um destes elementos que não se deixava facilmente a fraquejar perante o infortúnio. A bandeira que foi o porta-estandarte durante a vida, juntamente com outros contemporâneos, trouxeram-me a firme convicção da necessidade de se lutar pela preservação e manutenção desta manifestação popular que defendia e é o canto repentista (que tem suas raízes seguramente presentes deste a própria catequização, remontando às décadas de 1500).
Abel Bueno
Foi uma experiência fantástica, pois ao mesmo tempo que observávamos o tomar de formas do arcabouço deste memorável, íamos desbravando seus relacionamentos, seus sucessos e fracassos, seus desejos e frustrações. Delineamos pois, em todo o vigor a imagem de um eterno lutador, que habilmente trabalhava o seu dia a dia.
A coletânea dos fatos que todos estes personagens, como Horácio Neto, Jonata Neto, Abel Bueno, Parafuso (Antonio Cândido), Pedro Chiquito, Luizinho Rosa e muitos outros transferiram à minha pessoa constituíram-se na rememoração dos seus mais profundos âmagos, seus sonhos e pesadelos, e devem, dentro do possível, serem preservados na sua intimidade.
Horácio Neto e Moacir Siqueira
Planificação
Ciente da luta desproporcional que nos propunhamos a lançar, Abel Bueno ainda mais sem nenhum apoio de quem quer que fosse, a não ser dos próprios repentistas e de Oscar Francisco da Silva Bueno, filho de Nhô Serra, desde 2003 começamos a coletar dados sobre estas pessoas, os repentistas, do que resultou em mais de duas centenas de horas de gravação de não apenas som, mas também imagem, que hoje constitui-se em um pequeno patrimônio particular. Também foi feito o possível para recuperar a discografia destes cantores. Outros assuntos além do cururu também foram incorporados, mostrando tendências culturais existentes na região do Médio Tietê.
Pedro Chiquito
A convivência com estes elementos, pessoas simples, geralmente septuagenários ou mais, com escolaridade fundamental incompleta, mas com a fibra forjada pelas necessidades existenciais do dia a dia, mesclada com o arauto e poeta que saía exprimindo suas idéias, outras vezes transmitindo em suas fábulas conceitos de certo e errado, levando a palavra da Bíblia, foram elementos de convicção da necessidade de se manter esta tradição, que é uma das heranças da cultura popular desta região.
A escalada da tecnologia a largos passos seguramente acarretará o quase desaparecimento do tipo de pessoa que pudesse interagir adequadamente com o cururu, mas sempre existe o elemento surpresa, que nos faz errar nas convicções firmadas de estimativas e projeções não mensuráveis.
Parafuso
Em 2008, havia o foro particular que era chegado o momento de iniciar a contenda com a divulgação deste material. E graças à internet, no site da Youtube, que foi o escolhido, começamos a editar pequenos filmes, chamando a atenção do público para estas pessoas.
Luizinho Rosa
Optamos por colocar no Youtube semanalmente dois ou mais pequenos filmes. iniciamos em setembro, e quando em dezembro de 2008 tínhamos tido 1.100 acessos. No ano de 2009, entre janeiro a abril tivemos 5700 acessos, entre maio a agosto tivemos 11.000 acessos, e entre setembro a dezembro o número de acessos foi de 18.000. O total de acessos deste que iniciamos as atividades são em número de 44.442 e ocorrem entre 150 a 200 acessos/dia. O número atual de filmes é de 140.
Conquanto ainda seja um número relativamente baixo de acessos, temos a convicção que ainda está em franco aumento, não tendo atingido seu ápice.
Nhô Serra e Zico Moreira (ult. a D.)
Cremos que com isto estabelecemos nestes dois anos de trabalho uma ponta de lança para a divulgação desta arte repentista, e que se continuarmos a mantê-la, logo poderemos colher os frutos de todo este pequeno trabalho que nos propusemos a executar.
O ano de 2009 foi extremamente difícil para o cururu. Duas perdas irreparáveis se fizeram presentes, primeiramente de Horácio Neto, seguida depois por Abel Bueno, irmão do Nhô Serra. Em Tatuí perdemos Noel Mathias, outro excelente canturião. A queda destes carvalhos, apesar de irreparáveis e angustiantes, foram mais um incentivo para permanecermos na luta, o que fizemos de toda a boa vontade. Os contatos com os cururueiros permanecem, e depois destes anos de convivência, creio que mostramos aos que nos conhecem a intenção de não utilização comercial do som e imagem que eles nos tem me cedido.
Noel Mathias
Surpresas
O evento cultural Revelando São Paulo há anos luta pela cultura popular. Evento digno dos maiores elogios, tem sido um baluarte no estímulo da conservação de tradições.
O mês de outubro foi extremamente gratificante. Quando recebemos a notícia que o Conservatório Dramático e Musical de Tatuí Dr. Carlos de Campos, juntamente com o Governo do Estado de São Paulo, o Departamento Cultural de Tatuí, a Comissão Paulista de Folclore haviam reunido esforços e montado o Primeiro Festival de Cururu de Tatuí, sentimos que realmente com este nível de apoio, esta manifestação cultural teria muito mais oportunidade de sobreviver.
A semente do estímulo para se fazer avançar na formação de novos cururueiros finalmente havia sido lançada. Sentimos que assim se concretizava um dos maiores desejos de Abel Bueno, de fazer com que esta manifestação cultural permanecesse preservada dentro do Vale do Médio Tietê.
Cremos ser de importância fundamental que esta pequena planta que começou a brotar mais uma vez, em pleno Vale do Médio Tietê, seja sempre protegida pelas mãos da decência e sensatez humana, possa crescer forte e viçosa, lançando suas ramificações e sementes por toda a região, fazendo ter esta manifestação a importância que merece dentro das raízes culturais do Estado de São Paulo. E vamos lançar nossos sonhos além, imaginando que dentro de um futuro não muito distante, possa haver um encontro nacional não só de cururueiros, mas de todas as formas de cantos repentistas que ocorrem por esta imensidão do Brasil afora.
Realmente pelo que pudemos sentir durante os três dias do Festival de Cururu de Tatuí, durante o qual tivemos plena colaboração dos envolvidos, e dentre estas pessoas não poderia esquecer os nomes de Deise Juliana e Luana Muzzile, que colocaram-se à disposição não apenas durante o festival, mas também em fases posteriores, auxiliando-nos no necessário.
A aceitabilidade do festival pelo povo tatuiense e outros presentes que compareceram na Concha Acústica de Tatuí foi total. Não poderíamos deixar de elogiar o serviços de iluminação e som impecáveis, prestados pela Stick Som.
Não poderíamos deixar de lançar nossos agradecimentos à prof. Dra. Neide Rodrigues Gomes, incansável folclorista, que abraçou a esta causa, bem como ao prof. Dr. Henrique Autran Dourado, Diretor Executivo do Conservatório Dramático e Musical de Tatuí Dr. Carlos de Campos, pela concretização deste Festival. Meus agradecimentos particulares ao Dr. Henrique pela autorização do uso das imagens do Festival de Cururu para fins não comerciais.
Dra. Neide Rodrigues Gomes
Para evitar que se extraviasse, tomamos a liberdade de transcrever as normas em que foi assentado o Primeiro Festival de Cururu de Tatuí, bem como outras reportagens associadas ao evento, todas transcritas do site www.conservatoriodetatui.org.br
Dr. Henrique Autran Dourado
REGULAMENTO DO
FESTIVAL DE CURURU DE TATUÍ
PREÂMBULO
O I Torneio Estadual Cururu Vivo de Tatuí será realizado pelo Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, por intermédio do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, em colaboração com a Secretaria Municipal de Cultura, Esportes, Lazer e Juventude, do Governo Municipal.
I -DAS INSCRIÇÕES
As inscrições serão realizadas até o dia 15 de outubro de 2009, nos termos do Art. 14 do presente Regulamento.
I I – DOS OBJETIVOS
Art. 1°- O I Torneio Estadual Cururu Vivo de Tatuí acontecerá nos dias 8, 15 e 22 de novembro de 2009, em três fases distintas, com objetivos de proteger e difundir as manifestações da tradição, da memória e da diversidade cultural do interior paulista, em caráter competitivo.
III – DAS FINALIDADES
Art 2°- O I Torneio Estadual Cururu Vivo de Tatuí estimulará a difusão do Cururu do Estado de São Paulo, visando à integração, intercâmbio e congraçamento entre os cururueiros, multiplicação do conhecimento, divulgação da cultura popular de raiz do Estado de São Paulo e do gênero como forma legítima de expressão da raiz da música brasileira, a ser preservada em nome das legítimas e ricas manifestações populares.
IV – DA PARTICIPAÇÃO
Art. 3° Para participar do Festival, os integrantes das duplas de Cururu deverão ser residentes no Estado de São Paulo, mediante documentação de comprovação a ser apresentada no ato da inscrição, conforme o Art. 14 deste regulamento.
§ 1.: Cada município deverá ser representado por apenas uma dupla, escolhida a critério de sua Secretaria ou Departamento de Cultura, por aclamação, sugestão, votação ou seleção, ou ainda processo que julgar conveniente, sob sua responsabilidade exclusiva.
§ 2. As inscrições de cada cidade deverão ser feitas com a apresentação dos seguintes documentos e materiais:
I – Documentação requerida no Art. 14 deste Regulamento.
II – Fita VHS ou DVD com apresentação de uma rodada (baixão, réplica e tréplica) sobre o tema “Minha Cidade”, discorrendo e debatendo sobre o município de origem da dupla, empregando a carreira do “A”.
§ 3. Uma comissão de avaliação, composta por membros estranhos à organização do evento e às duplas e cidades participantes, escolherá 8 duplas para a etapa semifinal.
§ 4. Nas semifinais, a serem realizadas na Concha Acústica Spartaco Rossi, de Tatuí, nos dias 8 e 15 de novembro de 2009, as 8 duplas selecionadas, divididas em 4 por cada dia, terão os nomes individuais de seus integrantes colocados em um chapéu, e os nomes dos contendores (desafiantes) serão escolhidos, para cada embate, por meio sorteio realizado em público, entre todos os candidatos, antes de cada eliminatória.
V – DA ORGANIZAÇÃO DAS ELIMINATÓRIAS E DA FINAL
Art. 5° O Torneio será realizado em 3 fases, a saber:
§1.Semifinais, a serem realizadas nos dias 8 e 15 de novembro de 2009, às 17h, na Concha Acústica "Spartaco Rossi" de Tatuí; com tempo cronometrado de 24 minutos para cada dupla das 4 selecionadas por noite.
§ 2.Final, a ser realizada no dia 22 de novembro de 2009, às 17h, na Concha Acústica "Spartaco Rossi" de Tatuí; com tempo cronometrado de 15 minutos para cada dupla, totalizando 2 duplas, sobre tema e carreira a serem sorteados em público
I – A Comissão Organizadora distribuirá, entre os selecionados para as eliminatórias, os nomes das duplas inscritas para participação em cada uma das duas eliminatórias e a data de participação, ambas por sorteio realizado à frente de três testemunhas que subscreverão a ata.
II - As carreiras das eliminatórias serão igualmente sorteadas para cada dupla escolhida, dentre três das mais tradicionais, ou seja, carreiras do Sagrado, de S. João e do “A”.
§ 3. Na final, a ser realizada no dia 22 de novembro, às 17h, na Concha Acústica "Spartaco Rossi" de Tatuí, entre as duas duplas vencedoras de cada noite, os temas e carreiras serão definidos por sorteio realizado diante do público.
I - As 3 carreiras da final somente serão conhecidas no momento do sorteio, diante do público, na ordem em que forem escolhidas.
VI – DA QUALIFICAÇÃO PARA A FINAL
Art. 6º A qualificação das duas duplas que integrarão a final será realizada por júri composto por 3 membros escolhidos pela Comissão Organizadora dentre pessoas de notório saber e efetiva militância no campo da arte popular, dissociadas das cidades participantes e seus representantes cururueiros, e será a responsável pelo julgamento dos embates a serem realizados na final, domingo, dia 22 de novembro às 17h, na Concha Acústica "Spartaco Rossi" de Tatuí
Art. 7º O júri conferirá nota mínima de 5 (cinco) e máxima de 10 (dez) para cada um dos seguintes quesitos, individualmente para cada participante, atribuindo a cada cururueiro até 2 pontos por cada item:
1) Abertura (Baixão)
2) Interpretação
3) Afinação
4) Ritmo/Entrosamento com o violeiro
5) Presteza na resposta e na sequência do tema sorteado/ Respeito ao tempo delimitado
§ 1. Em caso de empate, será considerado qualificado, nas eliminatórias, e vencedor, na final, aquele que obtiver melhor nota nos quesitos 2, 3, 4 e 5. Ainda persistindo o empate, caberá o prêmio ao participante mais idoso.
§ 2. O vencedor individual, independentemente do desempenho do parceiro, consagrará vencedora a dupla de sua cidade.
Art. 8º A Comissão Organizadora fará publicar no dia 18 de outubro de 2009, no site do Conservatório de Tatuí (www.conservatoriodetatui.org.br) os nomes das duplas de cada município classificadas para a disputa final do Festival, conforme disposto no § 3 do Art 5º deste Regulamento, enviando aos selecionados telegrama com aviso de recebimento.
§ 1. Em caso de desistência, será convocada a dupla classificada em quinto lugar.
VII – DAS APRESENTAÇÕES
Art. 10 O tempo de apresentação de cada dupla Cururu será de 15 (quinze) minutos, ampliado ou encurtado a critério da Comissão Organizadora.
§ Único: O participante que ultrapassar o tempo limite estipulado será penalizado com o desconto de 01 (um) ponto por minuto avançado subtraído da soma total dos pontos alcançados.
Art. 11 Os participantes de cada etapa deverão se apresentar com no mínimo uma hora de antecedência no local designado.
VIII – DA PREMIAÇÃO
Art. 12 Os quatro finalistas escolhidos receberão:
§ 1. Por ordem de classificação, troféus em dimensões crescentes às duplas classificadas do primeiro ao quarto lugar, em cujas placas deverão ser gravados os nomes e os detalhes do Festival e respectiva premiação.
§ 2. Prêmio em dinheiro, respectivamente, R$ 1.000,00 (hum mil reais), R$ 800,00 (oitocentos reais), R$ 600,00 (seiscentos reais) e R$ 400,00 (quatrocentos reais), do primeiro ao quarto lugar.
§ 3. Todos os cururueiros das eliminatórias serão contemplados com certificados de participação.
Art. 13 Com o objetivo de valorizar e incentivar a criatividade dos cururueiros de Tatuí - cidade sede de realização do evento -, fica instituído o Prêmio Horácio Neto, na forma de destaque individual, que consistirá em troféu especial e, caso não seja um semifinalista, jantar para a dupla e seu violeiro, com direito a acompanhante nos termos do Art. 16deste Regulamento.
IX - DAS DISPOSIÇÕES FINAIS
Art. 14 No ato de inscrição, a ser feita pela Secretaria de Cultura de cada Município no sítio da Internet do Conservatório de Tatuí (www.conservatoriodetatui.org.br), deverá ser enviada, com postagem até a data final das inscrições (15 de outubro de 2009) fita VHS ou DVD remetida via Sedex para o endereço postal do Conservatório (R. São Bento, 415, Tatuí, SP 18270-820).
Art. 15 O transporte para as semifinais será exclusivamente e de inteira responsabilidade dos Grupos.
Art. 16 O Conservatório, após a final, oferecerá jantar em um restaurante da cidade, com direito a um acompanhante para cada um dos 4 participantes, incluindo o violeiro e um acompanhante.
Art. 17 Para a final, o Conservatório de Tatuí providenciará o transporte das duplas e seus respectivos violeiros e acompanhantes.
Art. 18 Os casos omissos serão resolvidos pela comissão organizadora do evento.
Tatuí, 26 de setembro de 2009.
A Coordenação
Notícia
Dupla de Agudos vence Torneio Estadual Cururu Vivo
A dupla João de Lima e Belão, pai e filho que competiram acompanhados do violeiro Toninho da Viola, foram os grandes campeões do Torneio Estadual Cururu Vivo, evento organizado pelo Governo de São Paulo por meio do Conservatório de Tatuí e em parceria com a Prefeitura de Tatuí por meio da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte, Lazer e Juventude. Vindos da cidade de Agudos, os cururueiros obtiveram a maior pontuação na soma das notas da comissão julgadora do evento na grande final, realizada no domingo, 22, na Concha Acústica “Spartaco Rossi”.
O Torneio Estadual Cururu Vivo reuniu dez duplas, de dez cidades da região. Pela primeira colocação no evento, a dupla de Agudos recebeu prêmio de R$ 1 mil e troféu projetado pelo artista plástico Jaime Pinheiro. Na segunda colocação, ficou a dupla de Tatuí, formada por Zé Pinto e Zacarias, acompanhados pelo violeiro Josué, que recebeu troféu e prêmio de R$ 800. Zé Vitanca e Zezão Neto, quese apresentaram com o violeiro Zé Mulato, deram o terceiro lugar na disputa à cidade de Cesário Lange, obtendo prêmio de R$ 600 e troféu. A quarta colocação foi para João Zarias e Lino Jacinto, acompanhados por Claudinho Keller, de Pardinho, com prêmio de R$ 400. A dupla Jonata Neto e João Mazzero, acompanhados pelo violeiro Alessandro Silva, de Piracicaba, ficaram na quinta colocação e receberam o troféu especial “Horácio Neto”.
A comissão julgadora esteve formada pela professora Neide Gomes e por Mari e Marilene Galvão, conhecidas como “Irmãs Galvão”. Na mesma data, além dos duelos do cururu, ocorreram shows do Grupo de Choro do Conservatório de Tatuí (coordenado por Alexandre Bauab Junior) e do cantor Almir Sater. Pelo menos 3 mil pessoas acompanharam o evento.
O torneio foi organizado para difundir o cururu, com vistas à integração, intercâmbio e congraçamento entre os cururueiros, multiplicação do conhecimento, divulgação da cultura popular de raiz do Estado de São Paulo e do gênero como forma legítima de expressão da raiz da música brasileira, a ser preservada em nome das legítimas e ricas manifestações populares.